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O avanço repentino do mar no
Furadouro fez desaparecer a parte nobre da praia, ameaça o
aglomerado urbano e está a preocupar o comércio
local.
“Este ano, isto está mesmo
muito mau”, confirma Ermelindo Pinho, 60 anos e uma vida
dedicada ao mar do Furadouro. Com o olhar perdido nas vagas
alterosas que batem nas pedras e saltam para a rua, o pescador do
Furadouro, afiança: “Nunca vi o Furadouro assim”
e adverte que “as marés vivas ainda nem
começaram e o mar aqui já comeu mais de 50 metros de
areal e escavou para aí dois de profundidade. Isto é
incrível.”
Ninguém percebe o que andam os
técnicos a fazer e Ermelindo Pinho chega mais um argumento
à polémica: “Antes de mexerem no esporão
tínhamos praia, deixámos de a ter quando se puseram a
mexer”. O pescador vareiro refere-se, pois, às obras
de reparação do esporão central, já
concluídas.
Ermelindo Pinho não acredita que o
mar venha a repor a areia que “roubou”. “Acho
muito difícil voltar a ter aqui praia, porque este ano tem
sido demais e só Deus sabe o que nos está ainda
reservado”, lamenta.
Nascido e criado na praia do Furadouro,
não conhece outra fonte de sustento que não seja a
pesca. A sua arte é a Xávega e é na companha
que opera a Norte do Furadouro, a do Nazareno, que ganha o
“trigo”. Este ano, não sabe como vai conseguir
trabalhar, porque “o barranco” que o mar escavou
é impossível de escalar pelas máquinas de
transporte do peixe.
“É uma tristeza o Furadouro
ficar sem praia e sem condições de pesca”,
lamenta, triste.
Por isso é que Manuel
Brandão, 35 anos, embora tenha nascido no Furadouro e ainda
tenha dado os primeiros passos na pesca com a família,
depressa percebeu que dali não vinha futuro e empregou-se
numa empresa do concelho. “Gosto muito de pesca, mas agora
só por passatempo, porque não dá para
viver”, explica. Aliás, para ele “é
importante que alguém faça alguma coisa pelo
Furadouro, porque se ficar sem pesca e sem praia, o que vai ser de
nós?”.
Ermelindo Pinho diz que, à falta de
melhor, vai ter que se virar para a apanha das enguias da Ria, mas
esta “também ficou num estado lastimável depois
das dragagens e já não se apanha de jeito”.
Manuel Brandão lamenta que “a
polícia marítima sabe andar por aqui a multar quem
por aqui tem redes da majoeira, mas não se lembra que esta
gente não tem outro ganha-pão”.
Maria Adriana tem as montras da sua
peixaria salpicadas pelas águas do mar. “Eu só
quero que o mar me dê tempo de fugir”, diz o seu estado
de espírito que é igual aos que moram na frente de
mar. Desde Novembro que as águas sobem, “mas
ultimamente tem sido de mais”, sentencia.
O Furadouro que, por estes dias, virou
destino de romarias de mirones ávidos de confirmar se o que
se diz é verdade, precisa de praia. “Eles perguntam-me
que vai haver praia esta ano e eu respondo que sim, mas na verdade
duvido muito”, diz Maria Adriana que acrescenta: “mas
nós precisamos de praia, se não vamos viver de
quê? O Governo tem que ver isto porque assim não pode
ser…”
Teresa Fidélis, presidente da
Administração da Região Hidrográfica
diz que “este fenómeno de erosão
marítima, complexo, não era expectável, porque
acontece a norte de um esporão, zona onde habitualmente
há acumulação de sedimentos e não o
contrário”. O que sucedeu, acrescenta Teresa
Fidélis, “poderá explicar-se por uma
alteração da orientação da corrente
marítima dominante, que em geral é de noroeste e
agora está aparentemente de sudoeste”.
A ARH do Centro reitera o facto de estar a
acompanhar este assunto com a maior atenção e
proactividade, quer no que diz respeito a
intervenções urgentes quer no que diz respeito a
intervenções estruturais, que minimizem os efeitos
negativos da erosão marítima de dimensões e
orientação atípicas.
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